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Classificação ou “complicação” do vinho francês?

Parcelas de Corton do Domaine d´Hardhuy: uma colcha de retalhos.

Compreender o Vinho Francês: é possível!

Com a democratização do consumo do vinho e a abertura de mercados para exportação, o vinho francês foi revestido de uma aura de “complicado” e afugentou os consumidores… Felizmente, temporariamente!

Histórico: do sucesso à necessidade de proteção.

Durante séculos, o vinho era considerado uma bebida meramente “hidratante”, acompanhamento (ou não) da refeição.

Para os melhores vinhos, havia dois tipos de consumo: um local, com um consumidor entendido que conhecia os melhores produtores e um para uma elite “de fora”. Essa elite podia pertencer à corte ou à grande burguesia, nacional ou estrangeira.

Ao longo dos séculos, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Rússia e mais tarde os Estados Unidos, foram grandes compradores dos famosos vinhos franceses, de Bordeaux, da Bourgogne ou de Champagne, contribuindo assim a fazer deles os mais renomados do mundo.

O comércio desses vinhos se fazia em barris ou em garrafas. Alguns “négociants” (engarrafadores ou simples comerciantes) abriram mercados afora.

A multiplicação dos restaurantes e bistrôs favoreceu a aparição de vinhos diferentes e, nem sempre, de qualidade.

Com o avanço “cosmopolita” nas grandes capitais, o vinho passou a ser objeto de um consumo diferente: um consumo de descoberta, comparativo, voltado à gastronomia regional e suas raízes.

Garrafas da Alsacia, da Loire, do Vallée du Rhône e outras regiões ganharam as mesas parisienses e logo de outros países.

Assim cresceu o consumo de achados, mais ou menos prestigiosos (e caros), revestido de uma aura “gourmet”, nascia á noção de harmonização para valorizar a comida.

Naquela época, o vinho francês reinava com folga no mundo.

Infelizmente, com o sucesso, viram os problemas, cópias, imitações, fraudes… Muitas tristezas para o consumidor e os produtores honestos.

Isso foi a semente de um movimento para proteger o produtor, o consumidor e o comerciante.

Apareceram associações locais, menções geográficas, e definição das obrigações na produção de tal ou tal região.

Se já existia movimentos históricos (Jurade de Saint Emilion já no século XII), não havia um quadro jurídico bem definido.

Isto foi se delineando no inicio do século XX, com um atraso devido as duas grandes guerras.

Com o Mercado Comum e depois a Comunidade Econômica Europeia a regulamentação foi prospera!

A situação hoje:

Como estamos hoje em termos de vinhos finos na França?

Existem três categorias para a regulamentação europeia:

  • AOP (Apelação de Origem Protegida), antigamente chamada de AOC (Appellation d’Origine Controlée) com mais de 58% da produção vinícola francesa.
  • VQPRD (vinho de Qualidade Produzido numa Região Determinada), antigamente chamada de VDQS (Vins Délémité de Qualité Supérieure) . Esta representa menos de 2% dos vinhos produzidos na França.
  • IGP: “Indication Géographique Protégée” antigamente chamados de Vins de Pays com mais de 33% da produção vinícola francesa.

O uso da palavra “protégée” mostra a vontade do legislador de proteger, tanto o consumidor quanto o produtor, enquanto a palavra “controlée” queria demonstrar um papel fiscalizador dos poderes públicos.

Na realidade, continuamos com as mesmas atribuições dadas pelo INAO (Institut National des Appellations d’Origine) que tem um papel preponderante em relação ao vinho, mas também em outros produtos, como queijos.

As regras da AOC definem:

  • Uma área geográfica onde o vinho deve ser produzido e quais parcelas são autorizadas.
  • As castas de uvas autorizadas, às vezes com a porcentagem a respeitar.
  • O grau alcoólico mínimo natural e máximo final.
  • A data do início da colheita.
  • O rendimento máximo, ou seja, a quantidade de hectolitros produzidos por hectares.
  • Os métodos agrícolas (densidade de plantio, tipo de poda) e de vinificação autorizados.Se formos considerar AOP, IGP e eventualmente VQPRD, o panorama não parece tão complicado…Coragem!

A noção de Cru:

A noção de Cru esta intimamente ligada à noção de “terroir” ou de “climat” (na Bourgogne a palavra “climat” define uma parcela específica).

Essa noção permite destacar vinhos elaborados a partir de uvas provenientes de uma parcela bem definida e reconhecida por produzir uvas de qualidade ímpar; é uma entidade geográfica única.

O tamanho dos Crus pode variar de alguns ares a algumas dezenas de hectares.

Na região de Bordeaux os Crus são de maior extensão, as vezes de milhares de hectares.

Por isso, se considera mais a propriedade dentro da região: o Château, como um todo porem reduzindo a superfície considerada.

Nem sempre, dentro de um Château, a qualidade das uvas é igual entre todas as parcelas.

Por isto os proprietários recorrem à figura de primeiro e de segundo vinho.

O segundo é um vinho de qualidade, porem não o suficiente para integrar o primeiro vinho.

Às vezes aparece um terceiro vinho ou as sobras são vendidas a engarrafadores que as comercializam sobre a AOC comunal.

Bordeaux, a classificação de 1855:

Na região de Bordeaux existiam três figuras importantes no comércio do vinho:

o proprietário, o engarrafador ( “négociant”) e o corretor.

O corretor, com grande conhecimento das propriedades e da qualidade dos vinhos, conseguia estabelecer um preço para o vinho.

Os corretores, tendo percebido a importância do “terroir” para repetir belos vinhos, safra após safra, já tinham estabelecido, no início do século XVIII, uma “tabela” com a cotação dos grandes vinhos.

Para apresentação na Exposição Universal de 1855 em Paris, o sindicato dos corretores de Bordeaux foi solicitado para estabelecer uma classificação dos melhores vinhos da região.

A classificação não é o resultado de umas degustações, mas sim de mais de cento e cinquenta anos de experiências e de práticas comerciais.

Nela, somente apareceram os vinhos tintos do Médoc, os brancos de Sauternes, Barsac e o Château Haut Brion, tinto de Pessac.

Em tinto, cinquenta e sete vinhos: quatro Premiers Grands Crus, onze Seconds crus, quatorze Troisièmes, onze Quatrièmes e dezessete Cinquièmes.

Em branco, vinte e um vinhos: Um Premier Cru Supérieur, nove Premiers Crus, onze Deuxiémes Crus.

Em 1973 o Château Mouton Rotschild foi alçado a Premier Grand Cru do Médoc junto com os outros quatro.

Rapidamente, foi percebido o interesse dessa classificação que favoreceu o comércio dos vinhos nela mencionados.

Isso provocou diversas iniciativas de “classificação” em outras AOC, como as de Graves de Pessac e Léognan em 1953 ou ainda de Saint Émilion em 1958.

A classificação de Saint Émilion em 1958 introduz um dado objetivo com a possibilidade de rever a classificação a cada dez anos (nem sempre foi tão regular).

A classificação dos Crus Bourgeois du Médoc de 1932 foi revista em 1974.

Com a regulamentação do parlamento europeu, a classificação perdeu valor oficial e somente está aceita a menção “Cru Bourgeois” nas garrafas dos vinhos produzidos por membros do sindicato que estabelece regras rígidas para o produtor: é uma indicação de qualidade e seriedade.

Em 1989 nasceu o sindicato dos Crus Artisans do Médoc que junta pequenos produtores de qualidade que trabalham diretamente na produção e se diferenciam da linha dos investidores e dos engarrafadores.

A Bourgogne: uma aproximação diferente.

Com menores propriedades e uma concha de retalho de parcelas, a Bourgogne entrou no sistema das AOC em 1937.

Foram determinadas AOC Regionais, Comunais, Premiers Crus e Grands Crus.

  • 23  AOC Regionales:

Levam o nome Bourgogne seguido de : Côtes de Nuits, Côtes de Beaune, Côtes Chalonnaises, Hautes Côtes de Beaune, Hautes Cõtes de Nuits, Mâcon, Chablis…

  • 44 AOC Communales:

Levam o nome do vilarejo : Pommard, Nuits Saint Georges, Givry, Ladoix, Meursault, Gevrey Chambertin…

  • 640 AOC de Premiers Crus de Bourgogne:

Provém de parcelas identificadas por produzir vinhos de alta qualidade que merecem ser destacadas e identificadas dentro da AOC Communale. Pode acrescentar, ou não, à AOC 1er Cru, o nome da parcela: Auxey Duresses 1er cru les Duresses, Montagny 1er Cru, Santenay 1er cru Beaurepaire, Chablis 1er Cru Vau-Ligneau…

  • 33 Grands Crus:  a elite dos grandes vinhos da Bourgogne.

Podem levar o nome completo ou parcial de um vilarejo como Aloxe Corton (para o Corton), Puligny Montrachet (para Batard Montrachet, Criots Batard Montrachet, Bienvenue Montrachet, Chevalier Montrachet). Podem ser associados a nome complementar como “Charlemagne” para os brancos  Corton Charlemagne ou ainda à identificação da parcela: Clos de Vougeot, Chambertin Clos de Bèze, Chablis Vaudésir…

Decorar isto tudo é cansativo e sem grande interesse para a maioria dos mortais.

Há de notar que todos esses vinhos da Bourgogne são produzidos a partir de duas uvas: o Chardonnay para o branco e o Pinot Noir para o tinto (apesar das exceções do Aligoté e do Gamay)… Dá para perceber que a noção de “varietal”, tratando o vinho pela casta da uva, é bem restritiva!

A Exceção do Beaujolais:

Apesar de integrar a região administrativa da Bourgogne, o Beaujolais é uma exceção em si.

Entidade situada ao extremo Sul da Bourgogne, o Beaujolais, majoritariamente tinto (mais de 90%), provém da uva Gamay e não Pinot Noir.

Com direito a usar a palavra Bourgogne, existe, hoje, um entendimento para não criar confusão e o Beaujolais “joga” sozinho. Ele faz muito bem, pois, além dos dez Crus, tem Beaujolais de excelente qualidade.

Outras regiões:

Outras regiões da França recorrem, também, a classificação para reforçar a identidade de algumas AOC menos conhecidas mas com parcelas privilegiadas. É o caso, por exemplo, do “grand cru” la Livinière para o Minervois.

A Alsace, região da França com a distinção da uva tem também os Grands Crus brancos. Por exemplo: AOC Alsace, Riesling, AOC Alsace, Riesling Grand Cru, Kitterlé. AOC Alsace, Riesling Grand Cru, Saering.

O que vale lembrar:

Todo o sistema de classificação e de proteção foi criado em favor do consumidor e do produtor.

Hoje, no Brasil, um movimento similar tenta destacar os melhores “terroirs” e criar DOC.

Vale lembrar que existe um crescendo que vai do vinho de mesa até o Grand Cru, passando pela IGP, AOC e os Premiers Crus. Sendo que, quanto mais alto na classificação quanto mais chance de ter um vinho superior em qualidade (e no preço!).

Não precisa focar nos Grands Crus: mais de nove franceses sobre dez nunca os beberam! Tem que merecê-los (e ter poder de compra!).

Vale a pena descobrir os vinhos da França, eles oferecem um leque impressionante de gostos, aromas e prazeres a serem desfrutados.

Como a musica não pode ser resumida às sete notas, o vinho não pode ser resumido às castas de uvas…Tem muito mais a descobrir!

 

François Dupuis

Selecionador de vinho do Club du Taste-vin desde 1992.

 

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