Vinhos orgânicos, Cultivo Racional, Terra Vitis, biodinâmicos, naturais...
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Vinhos orgânicos, Cultivo Racional, Terra Vitis, biodinâmicos, naturais e HVE.

Nesses últimos quinze anos, eu vi uma evolução interessante junto aos nossos produtores: cada vez mais respeito à Mãe Terra e à Biodiversidade, cada vez menos tratamentos automáticos com data definida e muito mais observação antes de agir.

Ainda que, dependendo de cada um, a orientação seja um pouco diferente, todos caminham para filosofias convergentes. Essas são: Cultivo Racional, Terra Vitis, vinhos orgânicos, biodinâmicos, naturais e HVE (Haute Valeur Environnementale).

Cultivo Racional (Culture Raisonnée)

Exemplo de cultivo racional
Adepto do cultivo racional há decadas, o Domaine Schlumberger dedica parte da propriedade para trabalhar segundo as regras do cultivo orgânico.

É o termo usado para definir o método de cultivo inteligente e respeitoso.

  • O produtor limita as intervenções ao estrito necessário.
  • O tratamento é aplicado em última opção, quando não há alternativa para garantir a safra.
  • A aplicação é limitada à parcela atingida pela doença, nunca globalmente ou preventivamente.

Terra Vitis

Exemplo de Terra Vitis.
Christian Bereziat e seu filho, produtores do Domaine de Saint Ennemond. Adeptos do Terra Vitis.

É uma certificação dada por um organismo independente e reconhecido pelo Ministério da Agricultura da França. Criada em 1998 no Beaujolais, a rede reúne algumas centenas de produtores de todas as regiões vitícolas da França.

A filosofia Terra Vitis apoia-se num tripé:

  • Proteger o homem e a terra (pois nós usamos, emprestada, a terra das gerações futuras), tendo em vista o equilíbrio biológico natural e visando o desenvolvimento sustentável. Isso engloba a observação e o intercâmbio com outros produtores, a culture raisonnée e a procura dos melhores métodos para favorecer as defesas naturais.
  • Incluir uma dimensão social nas relações com os assalariados. Ficando atento, comunicando e explicitando o porquê das escolhas feitas.
  • Respeito ao consumidor com a rastreabilidade e o controle Terra Vitis a cada etapa, da plantação à garrafa.

Vinhos orgânicos (Vin Bio)

Produtor de vinhos orgânicos
Domaine Bernard Baudry, em Chinon. Trabalham com vinhos orgânicos.

Inicialmente, era um vinho elaborado com uva orgânica. Desde 2012, os processos de vinificação também devem ser realizados exclusivamente com produtos orgânicos.

  • As regras podem ser diferentes de um país para outro.
  • Antes de conseguir a certificação, se passa por um período de três anos “em conversão”.
  • Existem várias certificações; as principais na França são AB Agriculture Biologique, Ecocert e Demeter.
  • O importante é a vontade marcada de respeitar a natureza e o consumidor, eliminando os riscos de contaminações com produtos químicos (adubos, pesticidas, inseticidas, fungicidas, herbicidas).

Vinhos biodinâmicos (Vin biodynamique)

Exemplo de cultivo biodinâmico
Château Couronneau, vinho biodinâmico.

Primeiramente, é um vinho orgânico com um quê mais de esoterismo. O solo, as parreiras, a localização são considerados como um conjunto vivo. Além de integrar-se influência da lua e dos astros, sem falar do papel preponderante do “calendário cósmico”.

  • Detratores falam de magia negra e os adeptos juram que é tudo diferente!
  • Na realidade, há observações interessantes, mas não comprovações científicas.
  • Misticismo ou abordagem de marketing, nada comprovado: o importante é que não faz mal e talvez faça bem…!
  • As duas principais certificadoras, na França, são Demeter e Biodyvin.

Vinhos Naturais (Vin Naturel)

Taças vazias
Ainda não trabalhamos com vinhos naturais.

Na realidade, não existe… Pelo menos, não tem entidade certificadora. Na França, há uma associação dos produtores de vinhos naturais.

Para ser natural, o vinho tem que ser orgânico ou biodinâmico, a colheita tem que ser manual, a fermentação feita só com leveduras naturais e nenhum produto para a vinificação além de doses baixinhas de enxofre.

  • Na realidade, não apresenta nenhuma novidade além do endurecimento de algumas regras para com os orgânicos ou biodinâmicos.
  • É mais um posicionamento de marketing e uma rigidez que, infelizmente, pode servir de desculpas para vinhos intragáveis!

Certificação HVE (Haute Valeur Environnementale) :

Exemplo de HVE
Château de France, um de nossos produtores com certificado HVE.

Esta é a única que depende do poder público.

Traduzido, significa Alto Valor Ambiental. O objetivo é considerar a unidade produtora agrícola como um todo, avaliando os aspetos fitossanitários, a biodiversidade, os adubos e o uso da agua para determinar o impacto no meio-ambiente. Não leva em conta o produto em si.

  • A ideia nasceu em 2007 a partir do poder público e em acordo com sindicatos e câmaras agrícolas.
  • Foi estruturada em 2011 com comissão certificadora.
  • HVE não leva em conta os aspectos sociais da empresa
  • As avaliações são feitas e resultam em pontos. Dependendo da pontuação, pode-se chegar ao nível um, dois ou três. Quem chega (e fica) no nível três, ganha a certificação “HVE”.
  • É levada em conta pelos grandes grupos de distribuição nas compras deles.
  • Em 2019 mais de 3.000 empresas agrícolas tinham a certificação HVE na França. No setor do vinho, a maioria vem do grupo dos “Vignerons Indépendants” que abraçou a ideia desde o inicio.

É um caminho diferente, mais administrativo, porém interessante por completar as filosofias anteriores. Críticos falam de guarda-chuva já os adeptos adeptos de caminhar na boa direção.

Exemplo de cultivo racional e, em parte, vinhos orgânicos.

A priori, se poderia pensar que vinhos orgânicos seriam mais naturais do que um terra vitis, mas isso depende muito do ser humano e da vontade dele.

As limitações nem sempre fazem unanimidade. Há criticas ao uso repetitivo do sulfato de cobre, principal agente de tratamento no cultivo orgânico, por poluir o lençol freático sem desaparecer… Nessa modalidade, o uso do enxofre é corriqueiro e necessáro por falta de substituto.

Assim, cada um pode escolher a via que lhe parece mais honesta. Não mudei a minha maneira de selecionar, são nossos produtores que evoluíram. Aliás, alguns deles até trabalham para fazer vinhos orgânicos, mas não requereram a classificação para preservar a liberdade e evitar a burocracia.

Por exemplo: há mais de quinze anos, o Domaine Schlumberger trabalha trinta hectares da propriedade seguindo os critérios para ser considerado orgânico. Porém faz isso sem buscar a certificação, eles estudam e gostariam de tirar conclusões, mas não é simples!

Ainda continuo procurando vinhos típicos de uma AOC com preço justo e, se for com mais respeito ao consumidor e à terra que deixaremos aos nossos filhos, BINGO!

Você pode encontrar alguns desses achados em nossa seleção de vinhos orgânicos.

François Dupuis

Selecionador dos vinhos do Club du Taste-vin, desde 1992

 

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